Pós-parto

Baby blues ou depressão pós-parto? Como diferenciar

Chorar sem motivo, sentir-se sobrecarregada, duvidar de si. Depois do parto, é comum ouvir que “isso é normal” ou que deveria estar só feliz. Entenda o que costuma passar sozinho, o que merece cuidado e quando pedir ajuda. Você não está sozinha, e isso não é culpa sua.

Dra. Evelin Brandelero, médica psiquiatra em Cuiabá
Dra. Evelin BrandeleroMédica psiquiatra · CRM/MT 11469 · RQE 8265Publicado em · 6 minutos de leitura
Mãe sentada em uma poltrona perto da janela, olhando com serenidade para o bebê adormecido em seu colo
Neste artigo

Resposta rápida

O baby blues é uma tristeza leve e passageira, que surge nos primeiros dias após o parto e costuma passar em até 2 semanas. A depressão pós-parto dura mais de 2 semanas, é mais intensa e dificulta a rotina e os cuidados consigo ou com o bebê. Ela tem tratamento. Pensamentos de machucar a si ou ao bebê pedem ajuda imediata.

O que é baby blues?

O baby blues, também chamado de tristeza pós-parto, é uma mudança de humor muito comum nos primeiros dias depois do nascimento. A mulher pode ficar mais sensível, chorosa, ansiosa ou irritada, em meio ao cansaço e à adaptação à vida com o bebê.

Costuma ser leve, durar de 2 a 3 dias e passar em até 2 semanas, sem tratamento específico. Descanso e apoio ajudam bastante nesse período.

O que é depressão pós-parto?

A depressão pós-parto é uma condição de saúde mais intensa e duradoura, que dura 2 semanas ou mais e atrapalha a vida diária. Segundo o Manual MSD, afeta cerca de 7% das mulheres.

Os sintomas costumam surgir nos primeiros meses, mas podem começar depois, ao longo do primeiro ano, ou ainda na gravidez. Sem tratamento, o quadro pode durar meses ou anos. A boa notícia é que ele tem tratamento.

Qual é a diferença entre baby blues e depressão pós-parto?

A principal diferença está em quanto tempo dura e quanto afeta o dia a dia.

Comparação entre baby blues e depressão pós-parto
O que observarBaby bluesDepressão pós-parto
Quando começaNos primeiros dias após o partoEm geral nos primeiros meses, mas pode surgir mais tarde
DuraçãoDe 2 a 3 dias, até 2 semanasMais de 2 semanas; pode durar meses sem tratamento
IntensidadeLeve, com altos e baixosIntensa e persistente
SentimentosSensibilidade, choro e preocupação que vêm e vãoTristeza profunda, culpa, desesperança ou sensação de ser uma mãe ruim
RotinaConsegue seguir, mesmo cansadaDifícil cuidar de si ou do bebê
O que ajudaDescanso e apoioAvaliação e tratamento, além de apoio

Se você está em dúvida, não precisa decidir sozinha. Procure uma avaliação, mesmo que tenha só alguns desses sinais.

Quais são os sintomas de depressão pós-parto?

Nem todas as mulheres sentem tudo isto, e nem sempre o principal sinal é a tristeza.

Humor e pensamentos

  • Tristeza profunda, choro frequente ou sensação de vazio
  • Irritação, raiva ou mudanças bruscas de humor
  • Culpa, desesperança ou sentir-se uma mãe ruim
  • Ansiedade ou crises de pânico
  • Dificuldade de concentração e de decidir
  • Dificuldade de criar vínculo com o bebê

Corpo e rotina

  • Cansaço extremo, além do esperado para a fase
  • Dificuldade para dormir mesmo quando o bebê dorme
  • Mudanças no apetite
  • Dores de cabeça ou outras dores sem explicação
  • Perda de interesse no que antes dava prazer
  • Sentir-se incapaz de cuidar do bebê

Quando é urgente?

Alguns sinais não podem esperar uma consulta. Eles não dizem nada sobre o seu caráter nem sobre o seu amor pelo bebê: são sintomas que precisam de ajuda.

Procure ajuda imediata, ligando para o SAMU no 192 ou indo a uma emergência, se houver:

  • Pensamentos de machucar a si mesma ou o bebê
  • Ver ou ouvir coisas que outras pessoas não percebem
  • Ideias muito estranhas, confusão ou agitação intensa
  • Pouca necessidade de dormir, com comportamento muito diferente do habitual

Esses sinais podem indicar psicose pós-parto, que é rara, mas é uma emergência. Se você é familiar, não deixe a mulher sozinha com o bebê até que ela seja avaliada. Para apoio emocional, ligue para o CVV, no 188 (24 horas, gratuito).

Quem tem mais risco?

Pode acontecer com qualquer mulher, e não é culpa dela. O risco é maior quando há:

  • Depressão antes ou durante a gravidez, ou depois de um parto anterior.
  • Histórico de depressão ou de transtorno bipolar na família.
  • Falta de sono e pouco apoio do parceiro, da parceira ou da família.
  • Problemas financeiros ou de relacionamento.
  • Complicações na gravidez ou no parto.

Se você já teve depressão, conte à equipe que acompanha o pré-natal. Veja também o conteúdo sobre saúde mental na gestação.

O que pode ajudar no dia a dia?

Estas atitudes ajudam, mas não substituem o tratamento quando há depressão. Escolha o que for possível hoje.

Mulher descansando de olhos fechados em um sofá claro enquanto o parceiro embala o bebê ao lado
  1. Descanse sempre que der.Dormir é uma necessidade, não um luxo. Aceite a ajuda para isso.
  2. Divida as tarefas.Peça ajuda específica com o bebê e com a casa, como “pode ficar com ele por uma hora?”.
  3. Fale sobre o que sente.Conte a alguém de confiança ou à equipe de saúde, mesmo que pareça difícil de explicar.
  4. Converse com outras mães.Saber que outras pessoas passam por algo parecido pode aliviar a culpa.
  5. Procure avaliação.Se a tristeza ou a dificuldade passam de 2 semanas, não espere melhorar sozinha.

Como a família pode ajudar?

Muitas vezes, quem percebe primeiro é alguém próximo.

Duas mulheres conversando à mesa, com duas xícaras, de mãos dadas
  • Ouça sem julgar e evite frases como “mas você tem um bebê lindo” ou “isso é frescura”.
  • Assuma tarefas concretas, como o banho do bebê, as refeições e a casa.
  • Proteja o sono da mãe, revezando os cuidados à noite sempre que for possível.
  • Ajude a marcar a consulta e a chegar até ela.
  • Fique atento(a) aos sinais de urgência.
  • Cuide de você: pais e parceiros também podem ter depressão nesse período.

Como é o tratamento da depressão pós-parto?

O tratamento é definido caso a caso e costuma envolver psicoterapia, medicamentos ou os dois. Veja mais sobre o tratamento para depressão pós-parto.

Psicoterapia

Abordagens como a terapia cognitivo-comportamental e a terapia interpessoal ajudam a lidar com os sentimentos, com a adaptação e com as relações nessa fase.

Medicamentos e amamentação

Os antidepressivos podem levar algumas semanas para fazer efeito. Muitos deles permitem continuar a amamentação, mas essa decisão deve ser avaliada com o médico, pesando os riscos e os benefícios para você e para o bebê. Antes de tomar qualquer remédio, pergunte se pode manter a amamentação.

Perguntas frequentes

Quanto tempo dura o baby blues?

Em geral, de 2 a 3 dias, podendo chegar a 2 semanas. Se a tristeza continuar depois disso, piorar ou dificultar a rotina, procure uma avaliação.

A depressão pós-parto pode começar meses depois do parto?

Sim. Os sintomas costumam aparecer nos primeiros meses, mas podem começar depois, aos poucos ou de repente, ao longo do primeiro ano. A depressão também pode começar ainda na gravidez.

Posso amamentar se precisar de antidepressivo?

Muitas vezes, sim. Muitos antidepressivos permitem continuar a amamentação, mas a decisão deve ser feita caso a caso com o médico. Não comece nem interrompa o medicamento por conta própria.

Ter depressão pós-parto significa ser uma mãe ruim?

Não. É uma condição de saúde, que não tem a ver com o seu amor pelo bebê nem com a sua capacidade como mãe. Pedir ajuda é uma forma de cuidar de vocês dois.

O pai ou a parceira também podem ter depressão depois do parto?

Sim. Pais e parceiros também podem ter depressão nesse período, e esses sinais também merecem atenção e cuidado.

A depressão pós-parto pode voltar em outra gestação?

Pode. Segundo o Manual MSD, cerca de 1 em cada 3 ou 4 mulheres que já tiveram depressão pós-parto volta a ter. Vale contar essa história à equipe de saúde durante a gravidez.

Dra. Evelin Brandelero, médica psiquiatra em Cuiabá

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Dra. Evelin Brandelero · Médica psiquiatra · CRM/MT 11469 · RQE 8265 Em sofrimento intenso ou risco, ligue 188 (CVV) ou 192 (SAMU).